20 de agosto de 2011

é isto

 Da última vez que havia levantado a cabeça ondulada por entre vagas de uma tempestade que durava há dias recordei que há anos vivia dentro do oceano, vagando o montante das montanhas até ao fundo dos vales que ora avante se erguiam quedados suaves deslizando de amplas e alvas plataformas de luz e cor ora entanto imergiam de volta a terra vinda ao enjoo da estabilidade de uma madrugada soerguida de outra luz pelo cratão. O mar-chão. 


(Iludido de vento o vento balança a renda da barca, do beliche até à proa, à ponte.) 

Acordar, num dia assim, foi ter o tempo em frente dizendo-me ser dia o dia seguido a voltar do oceano, por onde ando, à procura de muito, um pouco, como à cura, por um poema triste que me faça lembrar só o Sol.

E podia parar por aqui.

Da última vez custou-me menos acordar.

Não sei se eram os mesmos pássaros, não importam por ser pássaros ou voz rouca desta cor mesclada em canto onde a voz da pessoa eleva da musicalidade o ornamento. 

Não sei o que foi. Pouco importa. 

Com o mar e nele emersos em seu fundo, eram tudo. 

É dia, será dia... mas entre cada vaga fluída por onde navegavam haveria vida em um só dia porque só em terra se colocavam para escrever. 

A cabeça dependurada pelo braço descolada ao acordar pelo sorver da baba dos sonhos vestiu-me à pressa, e estou num ponto amplo, que de imóvel fundeada a ancora, menos agora à mercê da corrente me imobiliza na cambiante imensidão das ondas... estava pela primeira vez a experimentar o sabor de não pensar até aí... estava a acordar.

Estava a experimentar pela primeira vez de vir de um estado de fundo silêncio, de ampla e lócua luz, de esclarecimento, digo eu, digo eu, dissemos, nós, no barco.

E ele riu-se, porque sabe. Pelo olhar que lancei a olhar para a folha que tinha na minha mão quando me deitei para experimentar reiniciar-me a escrever, assim me leu.

Nada tinha escrito, a não ser mais umas rugas com que eu contribuí para amarrotá-la entre os braços ainda mais um bocadinho.

Nada tinha escrito.
Nada havia de escrever.

E gritava a dar o bom dia, sem os tachos a escorregar pelo fogão da cozinha.

Uma boa noite, um bom dia. 

Ano do senhor 495 antes de Cristo, como não se diz, como nem sequer em qualquer outro calendário. Hora astral já de milhares de anos de idade, dezenas de milhares de séculos perfeitos percursos de milhão, conquanto momentâneos.

‘Para que importam as horas quando vives à tona de água, diz-me. Há café feito em cima do fogão. Traz-me uma caneca quando subires ao convés.’

E eu começo a escrever o que ele diz sem que para isso seja preciso entrar com ele em diálogo. É fácil. Acabou de se virar outra vez para o mar. 

O vento ala a embarcação. 
O mastro inclinado com a vela de proa a sugar-se movimento da canoa.

O meu capitão está a escrever, está ele, à proa, o ansião, mestre, atlante, argonauta, às rédeas da nave onde transporto a sua pena. 

Ele, é o poeta quem o comanda; ele, e o mar à sua mão.

Dobro a folha amarrotada, enchendo por fim as duas canecas de café.   

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