A espera é a ilusão onde por ela somos ouvidos, mais que escritos geniais são os poemas sentidos.Tenho tantos escritos em casa, não sei mais que fazer. Quero a paz dão-me o mundo, quero-me só se adormecer.
Espero-te, mas não esperes tu por mim.
Amo-te, mas não sei quem és.
Esqueço tudo nessa a última tez.
Eu não existo.
Nem tu; idílica alma em devaneio.
A memória é fascinante. Considere-se esta experiência psicológica… Um grupo de pessoas foi submetido a 10 imagens variadas, da infância. Nove eram realmente da sua infância e uma delas era falsa: Os seus retratos foram postos num parque de diversões, onde nunca estiveram. Resultado: 80% reconheceram-se na fotografia, ou seja, reconheceram a imagem falsa como real. Os restantes não se lembraram. Os investigadores perguntaram novamente. Da segunda vez, os 20% restantes disseram que se lembravam da cena - “que dia maravilhoso no parque com os meus pais” - lembravam-se, portanto, de um acontecimento completamente inventado. A memória é dinâmica. Está viva. Se faltam alguns detalhes, a memória preenche os vazios com coisas que nunca aconteceram. Eis o poder de uma imagem.
Interacção que condiciona e sublima todas as formas de vida pela dispersa quantidade de luz que é doseada em ciclos na intermitência – luminosidade e oclusão; eras inteiras umas, outras com a mesma face, que se abrem e fecham em início-fim contínuo a ciclos dinumerados. Dias estreitados no espectro do visível, amplos pela evidente temperatura que em passo subtil une e complementa a claridade ao frio. Reingresso à ordem difusa que equaliza as cores. Manhãs submergidas na resplandecência que se evola dos grandes objectos ausidos de quaisquer unas sombras. Mais noite que dia.
Tenho em mãos um volante e ao longe um alvo em cujo alinho é rumo aprumado. Precedo a inércia movendo-o, suavemente, visando ao longe um limite, até onde caminhará. Um breve movimento, níveo, lança-o em direcção ao incerto… mas, não estou aqui, na Terra, onde todas as leis me confundem; estou no vácuo, e o volante distanciado da origem tende velozmente até à unidade, progredindo por todas as posições do infinitésimo e eternamente aproximando-se do fim, sem nunca o alcançar.
A espera assume-se como forma de assentar definitivamente todos os objectivos num cadáver, que é futuro.
Viver o tempo que resta com a mente focada e alinhada para essa distância, viver de acordo com a projecção sem sabermos o que daí poderá advir, viver para o futuro sem sabermos como lidar com o presente, viver uma tranquilidade de tempos díspares moldando-os a um só tempo, tudo isto é esperança.
Se a expectativa sobre algo físico ou imaginário é generosamente vivenciada, ultrapassando términos de tudo o que se pensa crível, começa o Homem a visionar, alinhando toda a sua vida de acordo com a indicação magnética de que tudo o que daí advém será um fim, ou resultado final tangível.
Deste parco realinhamento instado resulta frequentemente um afogo, gracioso desassossego noctâmbulo navegado ao dorso de uma constelação, em breves reingressos à consistência, à vivência e existência de um Eu, à queda de um cavalo. 
Ontem, depois do fogo consumar mais uma boa parcela de floresta tremi de frio, ao ver à noite os verdes virados cinza e brasas quentes. Ontem, depois da floresta arder, ficou Plutão exposto à superfície dos mantos, salpicados aqui e ali por ginjas cor do sol que haveriam de se reactivar. O fogo, que arde sem se ver, não é fogo verdadeiro, é amor, e em nada se assemelha aos hortos de incêndio que varreram esta montanha.
O alegre bicho poisou entre o arame farpado da vedação penteando a sua curta plumagem. Foi-me concedido esse tempo. O sol, sempre o sol, cobria de verde o azul do céu clareado pelo Sorraia. Tudo parecia o oposto, e eu, concentrado no alegre bicho, não arredava pé. Parece-me necessária a descrição. Os cardos azuis, a erva alta composta de espigas secas, fenos ainda delicados, brancos malmequeres juvenis e uma pilha de canas secas, e outros juncos em forma centro, compunham o local de observação. Sei lá… contemplação, descrição, atenção e pintura. Agora que me lembro, entre olhar para a folha de papel-cavalhinho e para a sebe entre o imenso bosque enigmático apenas pelas mãos e pela diversidade da cor que até os lápis se consagravam eu existia. Que dizer do alegre e corpulento passariforme? Esbocei-o a carvão afiado, colori-o… guardei-o como numa fotografia, mas nunca pensei descrevê-lo à posteriori
, como alusão ou acontecimento, como memória, ou moldura de faia, iluminura. Mostrava-o agora, mas não o tenho comigo.
É usual, pelo menos para quem já viajou de avião, marcar em primeiro lugar o voo e depois, “para não correr riscos”, marcar também a primeira dormida. Enfim, para repousar as malas. Depois, vencido este sentimento de estabilidade protectora, aí sim, e durante o tempo disposto para tal, procurar, falar, entrar em contacto, saber procurar o onde, o até onde, o até quando. Acredito que com agenda marcada, isto é, com o tempo de estadia definido, as férias poderão volver-se ao desfrutar de um regresso antecipado. Daqui se depreende que o que inicialmente era tido como procura de paz e descanso se queda facilmente num crescendo exponencial da ansiedade. Um turista com férias marcadas, ainda que em tom de piada lembre um condenado com os dias contados é, sem dúvida, o mesmo que dizer, aproveitar ao que resta o tempo que nos é concedido. Esqueçamos então as férias dependentes de um transporte aéreo, que bem suportam a ideia de turismo. À superfície - creio - tudo muda, passando consideravelmente a ser território, caminho. Há aqui a facilidade de ver aproximada a distância até ao limite temporal de um… "vamos já, em curso!". As viagens de comboio, de automóvel, de autopullman, facilitam e muito, a demanda de serem feitas férias, sentimento este já rodeado de alguma ansiedade. Mas esqueçamos também a ansiedade e deixemo-nos levar pelo que nos espera, de braços abertos. Viajar sem data marcada, viajar sem preocupações com estadias, viajar pela procura, procurar pela viagem, é um livro aberto nas mãos que manuseiam a carta geográfica, o mapa de estradas, direccionando o projecto rumo ao que daí possa advir. Conhecer, muitas das vezes, é fazer por procurar conhecer, que nada mais é que procurar conhecimento. Hoje, quero dizer, nos dias que correm, viajar como apelam, viajar cá dentro, é uma opção muito enriquecedora porque, tudo o mais que se considere, coloca-nos de frente para aquilo que cada qual pensa que somos, como individuais colectivos. Quantas vezes não proferimos a intenção de dizer que não gostámos de determinado lugar, só porque alguém nos disse algo que não aceitámos, ou só porque não nos sorriram, ou só porque nada não nos disseram, ou só porque não havia leite de soja em determinado supermercado… quantas vezes não partiu, de quem vem de fora, a expansão da sua ansiedade, esquecemos assim por momentos, que a energia individual interage directamente com a terra, com as pessoas, escapa-se-nos a ideia de inter-dependência e inter-relação, e por aí em diante... Esqueçamo-nos de nós próprios e procuremos conhecer o que está cá dentro, ao que de nós é comum, o sermos, de coração, portugueses. De Viana do Castelo a Vila Real de Santo António, de Miranda do Douro a Vila do Bispo, até ao cabo de São Vicente e depois, de regresso, parar no coração geodésico de Portugal, no ânimo de Vila de Rei. No verdadeiro sentido da palavra abraçar Portugal, conhecer do cruzamento dos extremos aquilo que se encontra na sua intersecção. Viajar em Portugal, conhecer a diversidade da qual se reveste, passar por todas as terras, cidades, vilas e aldeias do território é, pelo menos, de se tentar.
É o projecto português, pequeno, à dimensão de um país, à escala dessa senda, à escala do conhecer-se. O interior para nós substantivo é - ou será um sempre foi - motivo para se pressupor distância a essa mesma interioridade. E procura-se o mar como local de descanso, os mares de Agosto, que de norte a sul vivem a aventura da subsistência. É certo, há praias e praias, umas mais povoadas, outras nem por isso. Procure-se aquela para onde se dirigir. Na verdade, viajando de automóvel, não há que dar importância à escolha de destino. Destino é o que por vezes nos preenche, esvaziando pulmões de sua paz, inundando-os de desassossego. Tanto dá, queiramos estar onde sempre estivemos, queiramos ir ou não de férias, conta ir, apenas ir, à procura desse local interior, desse exteriorizar… aí, nessa esplanada junto ao mar, aí na esplanada junto ao delta, aí, no deserto alentejano, irmão de sangue do planalto, aí entre o verde de Caminha e a serra do Gerês, e de Montalegre a Chaves, de Vila Pouca a Amarante - pela encosta do Alvão, de Mondim à Campeã, de Montemuro à Lousã, de Monchique ao Caldeirão. Talvez me falte a imaginação para falar de férias em Portugal mas…troque-se o termo férias - que já de si subentende uma pausa no trabalho - e pense-se em viagem. É um termo mais generalista do qual não se depreende prisão alguma, apenas liberdade.
Ao nível do solo moviam-se por entre o gentil ar inominável mares de almas sem margens… Limpei as penas vagueando ao sabor das mais belas palavras de verdadeiras poetas, verdadeiros poetas que ali cultivavam com deleite as belas flores trazidas de mão em mão até ocuparem um lugar especial que a jardineira lhe dedicava.