20 de agosto de 2011

cristal

Os cristais que recolhia na montanha com a ajuda de um pequeno martelo de mão eram pertença da mesma montanha onde sua família habitava há várias gerações. No sopé da grande cordilheira dos Himalaya, numa aldeia verde rodeada por um imenso lago, espelhava-se de céu e simultaneamente de azul nos tons quentes de uma noite iniciada de luar.
Os cristais colhidos, nascidos do Tempo, estavam a três dias ou quatro dias a pé montanha a acima, mais regresso em outros tantos, procurando o melhor abrigo para preparar a noite, e regressar.
Que me tivesse contado teriam sido cinco ou seis vezes as vezes que até à data de sua idade aí havia sazonalmente habitado até aos dias de hoje. Chegar até aqui, a pé, deixava-o somente a monção e a montanha - o tempo, os pássaros, as árvores - dava-lhe as melhores pistas do dia certo para a procura dos primeiros trilhos do momento, aos que a si pedia permissão contemplando-a em toda a sua abundância e de si esperando a obtenção de uma resposta válida, ou não, que por nada deste mundo antes que ela a desse alguém se quedasse a um início de caminho. Se a montanha por si integrada como a identificação da divindade e do sagrado lhe endossasse essa permissão, ele agradecia, oferecendo-lhe a sua contemplação e a sua meditação mais humildes, a dança e a contemplação do fogo numa roda de cânticos, e as histórias. Aí construía e reparava os seus instrumentos e se lançava adentro a esse momento juntamente com a sua família, pais, primos, irmãos, adentro da cordilheira até desaparecerem lançados a essa procura. Atravessavam pontes suspensas sobre rios e por vezes passagens através de um só fio, para por fim se aproximarem cada vez mais desse momento único e singular em que descobrir é vivido como agradecimento a uma oferta. É difícil dizer isto sem que fale da cor dos seus olhos, pois são esses mesmos os que agora à minha frente e me fazem parte desta passagem - ele sorri, continuando a história de como encontrou estes cristais que agora deposita sobre a minha palma da minha mão. Sem perceber, sem ser preciso ter de perceber, repousa sobre a mão estendida um pequeno cristal; um pequeno cristal desenvolvido a par de um pequeno e ínfimo pedaço de tempo, de leveza e transparência, irradiando e em si reflectindo todas as cores inclusas de verdes das árvores, no movimento dos reflexos, e de brilho de experiência de vida à qual símbolo é esta entrega e tudo o mais que nesse instante de partilha fosse presenciado pelos meus.

Oferece-me um cristal retirado do lote que havia recolhido desta sua última viagem e que agora, está aqui à minha frente, entregando-o humildemente; onde sobre as minhas mãos em seu agradecimento é energia um estado puro - e continua com a sua história, que é a da sua vida, agora feita escritas num bloco de notas e de memórias.
Dormimos essa noite após ter rodado o hemisfério a sul, entre o Cinzel, Fénix, e Escultor. De manhã, ao acordar, comi fruta e bebi chá quente de frente à belíssima cordilheira espelhada no lago. Bebi chá e comi fruta e arroz, e de imediato atento que com outros e melhores instrumentos poderia vir a recolher mais e melhores cristais da montanha, mas recordo-me no que me havia dito Singh e depressa percebo que todo o ritual é uma forma de honrar a contemplação da terra e dos elementos, do sol e da lua, e da própria energia em si. A recolha e o simbolismo que depositam em cada descoberta fá-los usar esses ínfimos pedaços de criação do tempo como totens ou baterias carregadas no sagrado, que sabiamente usam para se situarem no presente e que sabiamente dirigem, no acordo que se estabelece do eléctrico com a vibração.
‘’Sentimo-nos imensamente gratos de sermos capazes de suportar esta forma de tratar a terra e sua recompensa com bondade e gratidão”. Belíssimos cristais de quartzo cujo prisma é constituído por duas verdadeiras e perfeitas terminações", devem ter dito os meus olhos, já que, contemplando-nos mutuamente, “Para muitos uma simples pedra, para outros a ligação mais profunda”, disse-me Singh. “De dentro de cada um destes cristais há um, como o primeiro, como um que nos abre uma passagem”, e eu fico por momentos sem perceber o que disse, e ele percebe, logo repetindo, “ao estimar tudo o que está contido neste cristal agora em ti e nas tuas mãos, estou na verdade a honrar-te e à tua presença em um outro caminho, mas aqui e agora reunidos”...

Fecho por agora o livro de apontamentos, o bloco de notas e de algumas memórias transcritas dos momentos mais sublimes desta viagem à superfície de um exterior de desgaste que esmói do cristal o carvão a cada palavra…Um esparso brilho, reflectido futuro… fugaz quando de perto vislumbrado.

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